CONVERSAÇÃO

By | 14.12.13 Deixe um comentário
CONVERSAÇÃO
Sergio Spritzer


Conversando é que a gente se entende. (ditado popular). Sem conversar, o seu corolário, não há como se entender.

Coloque duas pessoas de pouca afinidade num elevador (isso já deu filme) ou num outro espaço confinado mais  agradável como uma ilha: no inicio se entendem procurando delimitar territórios e poderes. Procuram mostrar ao outro como são capazes de atacar e defender-se. Quando isso já fica pra lá de conhecido, sentem-se sós. Precisam da companhia de seu semelhante. E começam a abrir-se lenta e progressivamente. Veja no naufrago, em Robinson Crusoé, e se não tiver a oportunidade de ler o pequeno príncipe e a raposa , inssisto que leia.

Quando as pessoas já não compreendiam uma as outras, a construção da maravilha que era a torre de babel (Do antigo testamento), ela estancou e as diferentes tribos que antes tinham um objetivo maior, iniciaram brigas fratricidas. Elas falavam diferentes línguas. Quem não se compreende tende a conflituar.

Numa reunião de família: como foi o dia de vocês? Tudo bem. Hoje a professor a ensinou coisas novas de química, física e biologia. Há!.. que interessante...eu também joguei com meu colega preferido no recreio. Ótimo; é bom jogar com os colegas. E tu Maria (a esposa) como passaste a manhã? Fiz compras, arrumei a casa e cuidei da filharada. O de sempre. Cada um diz o que pensa ou o que sente e faz ou fez. Isso é conversa?

Olá pessoal. Bom dia! Estamos iniciando nossa reunião. Qual é a pauta? Segue-se uma lista de assuntos que o gerente que tratar mais os problemas. Vamos conversar a respeito diz o chefe procurando mostrar uma certa descontração. Tudo bem chefe: o Sr. Nos diz se  o que se a gente conversasse ficaria bem. Mesmo que a gente pense diferente tenha fé no que se pense?

Isso. A essência do ato de conversar não é persuadir, mudar a opinião do outro. Não é interrrogar as falhas do modo do outros sentir ou pensar. É bem mais essencial: cada ser vivo especialmente seres humanas são complexamente diferentes. Não há motivo para terem as mesmas impreesões a respeito unsdos outros e da realidade. Entretanto precisam entrar num acordo relacional que lhes sirva. A conversação é o exercício da coordenação dessas diferenças. Uma conversação não pode ser imposta às partes. Ela não tem um plano de como começar e como terminar preestabelecido. E não tem um juiz que orienta quando ela está certa ou errada. Não tem um ponto de partida que não seja o exame compartilhado do modo como cada uma das partes vê, escuta e sente o que lhes acontece para então todos poderem se perguntar como grupo o que lhe interessa alcançar, como quando e onde.

Na nossa cultura, tais perguntas com frequência são feitas de cima para baixo, por alguma autoridade familiar, médica, política, econômica, religiosa, jurídica, educacional ou cientifica. Usamos um saber pré-constituído à custas do progresso da ciência de cada área. Trata-se de um saber consentido e reconhecido por um grupo de pares, uma comunidade. Quanto maior for ela maior poder de verdade terá sobre alguém  que pense diferente. Em sociedades democráticas ou totalitárias, a maioria detém ( no duplo sentido de ter a posso e deter=trancar o fluxo) do poder de acesso a informação e tem o poder de lidar com a chave de acesso decidindo quem pode ou não participar da comunidade. Comporta-se como um clube com seus estatutos e regras. Com relação a essa ordem estatutária e à influencia da direção, ela é soberana. As organizações institucionalizadas não prezam pela construção e reconstrução de novas realidades através da conversação entre as partes.

Comunidades institucionalizadas, incluindo ai muitas formas de ensino e terapia, não são acessíveis a conversação e seu efeito, a convivência humana. Alguém so escuto ou so fala. Perguntas e respostas. Só escreve e outro comenta. So assiste e outros aplaudem. Só torcem mas não jogam. Opõem-se, mas não levam em conta a experiência e situação do outro. A crise da não conversão é cultural e de longa data : quando seres humanos conversaram com facilidade? Nunca foi fácil o ato de conversar. A literatura é exuberante na arte de argumentar, persuadir, influenciar, contar histórias, escrever contos, poemas e fazer manuais de instruções. Temos um número significativo de estudos a respeito da estrutura formal da conversação. Mas sem uma definição co-ativa do que ela seja. Conversação é bem mais do que bater um papo ou trocar ideias sobre um assunto pautado. Conversar não é informar-se. Nem trocar informações. Nem mesmo construir um conhecimento a respeito de um assunto. Pessoas que sabem algo a respeito de assuntos de seu interesse possivelmente gostariam de conversar. Isso é outro passo.

Agora temos uma abundância de recursos para conversar acontece algo paradoxal: as máquinas produzem para nos seres humanos. Apensar disso, não temos temo s  nem para produzir. O tempo escassseia embora a tecnologia nos ofereça cada vez mais possibilidades de interação com menos tempo e mais resolutividade.

É que nesse novo conceito de resolutividade não estamos contanto com a conversação e a convivência.  Se um dia o mundo tecnologia se resolver a si mesmo, qual será o sentido dele para nossas vidas? Nem tudo é utilitário. Nem tudo é para ser comprado e vendido. Em essência a vida humana é para ser com-vivida, com-versada, com-sentida, entre-vista, com-templada, com-partilhada e coativada.

Na família convoca-se uma reunião de família para conversar a respeito do orçamento doméstico. Como assim conversar? É algo grave?

O parente aposentado aborda o executivo: Oi como vai? Há quanto tempo não falamos. O executivo está visivelmente desconfortável por “perder tempo” com o aposentado.

Executivos não tem tempo de conversar. Aposentados, jogam conversa fora.

Afinal qual a função da conversa?

Em diferentes situações da vida contemporânea conversar é francamente associado a perder tempo, discutir algo difícil ou penoso, ouvir e então falar a respeito do assunto. É muito raro que o sentido de conversar seja compreendido como versar junto, ou seja, construir juntos um sentimento, ideia, visão ou ação. A informação pode ser acessada sem conversação. Mas não podemos conhecer sem um movimento de ida e volta de experiências, ideias, gestos, emoções e sentimento no plano intersubjetivo, intersubjetivo e transubjetivo. Eles conversam entre si.

Quando você convive com uma realidade física convive com ela. Convivendo com realidades, físicas ou psíquicas aumentamos cada vez mais a chance de acontecerem um "conversa” com o inesperado, o desconhecido. “eureka"  diz Arquimedes para manifestar uma súbita iluminação precedida por uma conversa interior inspirada na observação do seu corpo flutuando. Flutuar por flutuar todos sabiam. Mas poucos conversavam com isso. O mesmo para  a lei da gravidade, a descoberta da penicilina e assim por diante. Conversar é preciso no sentido de necessário e essencial; entretando é igualmente impreciso: não tem uma agende de começo meio e fim predefinidos.

Detendo-nos para analisar o que é e para que é conversar, percebemos que essa atividade mobiliza a interlocução, a intervisão, a interação e a intersubjetividade de tal forma que tende a construir uma realidade ativamente compartilhada de interesse de comum e não imposto por um para outros. ela parece ser essencial para a construção real do conhecimento por mais se se acredite que ele seja possível de ser realizado individualmente..

Varias terapias e religiões têm como interesse ajudar ao próximo. Mas não conversar.

Afinal é importante a atividade de conversar? Não será melhor perguntar e responder ou narrar para que alguém ouça ou assista, ou jogar conversa fora. Conversar é uma atividade exploratória entre as partes com a expectativa de encotrar pontos de criar e almpliar o que lhes interessa. O conversar não vem pré definido. É produzido quase ao acaso. Quando pessoas se dispõe a conversar a respeito de um assunto de seu interesse é bem possível que acabem percebendo que tal interesse não é como se pensava e podem existir outros de interesse ainda maior.

Quanto tempo as pessoas têm para conversar com as outras ao longo da vida e do dia a dia? Eu não me refiro à uma sequencia de perguntas e respostas, uma explicação, a tentativa de persuadir ou dissuadir pessoas a pensarem ou fazerem algo. Uma conversa não tem por objetivo obter e nem especificar uma informação. Conversar também não é saber a opinião dos outros.

Filósofos não nos ensinam a conversar e sim a refletir. Isso é ótimo. Agora a relfexão sem conversação não tem sentido.

“precisamos conversar sobre...” diz o pai ao filho ou o patrão ao funcionário.....lá vem bomba.

Posso conversar contigo diz o galante cavalheiro procurando conquistar a dama. Como assim conversar? Eu nem te conheço....pois ai está uma oportunidade para te conhecer. 

Vamos jogar um pouco de conversa fora.... diz um amigo convidando para beber uma cerveja num bar. Ai vai um evidente sentido de falar para botar para fora e espairar. Não é uma conversar....é um desabafo.

Atores parecem conversar numa peça de teatro enquanto a plateia assite o que lhes acontece. Um monólogo pode sim ser muito bem uma conversa, desde que seja autorreflexiva.

Duas pessoas dizendo o que uma pensa da outra, não é uma conversa. Obedecer uma norma ou falar a respeito dessa norma é uma aula, mas não uma conversa.

Nunca foi fácil conversar na história humana. Mesmo os mais sábios filósofos escreviam suas reflexões e pregavam suas verdades a um grupo seleto de seguidores. Eles poderiam. Sim perguntar a respeito dos enunciados do grande mestre. E ele estava na responsabilidade de responder de forma bem sustentada logicamente. Sócrates não conversava com seus discípulos, nem Cristo ou Buda. Eles pregavam. Os discípulos escutavam. Conversar não é compreender o que alguém fala ou explicar algo que alguém não saiba. Uma aula tradicional não tem conversa. É uma exposição seguida –nas melhores das  hipóteses – de uma discussão ( discussão= abre-se uma falação para ver quem tem razão.) . Discutir não é conversar. Enquanto na discussão as partes procuram afirmar a sua verdade, na conversa ela se constrói sucessivamente pelo intercambio de ideias e experiências.

Conversação não rima com poder e autoridade. Nem com controle e regras. Nem regras de conversação. Elas afinal são definidas e construídas pelo interesse comum.

Uma das características do homem moderno que ganhou uma potencia muito maior com a revolução tecnológica é o que poderíamos chamar de a economia do tempo e do espaço. Minuaturizar e agilizar processos. O lema é fazer cada vez mais com menos em menos tempo e espaço. Para sobrar mais tempo e espaço para fazer mais do mesmo.

Nesse contexto, o imperativo da objetividade ganhou força e também interferiu nas relações pessoais. A conversa, por exemplo, é um gênero bastante desprestigiado nas formas como os próprios pesquisadores analisam o "discurso". A análise da conversação é com frequência tratada como uma investigação de alguém que "conversa".  Vemos um processo não dirigido de investigação de alguém a respeito de algo do interesse do investigador. Ai se coloca a questão fundamental: O que é - afinal de contas, uma conversação? Se compreendermos a prática conversacional como um encontro de intenções comportamentos e resultados de expectativa comum entre as partes, não há um que ensina a conversar e outro que aprende. Ela se produz em ato.  Um terapeuta por mais atento ao seu paciente ou cliente na intenção de compreender analisar e interpretar ou prescrever medicação ou comportamento, não está participando de um ato conversacional. Na conversação tal como a compreendemos não há um investigador e outro investigado. Perguntas e respostas. Instrução e execução. Uma palestra, por mais cativante que seja não é em si mesma uma atividade conversacional. Mesmo com vivencias interessantes. Comentários realizados após palestras conferencia, aulas, exposições, ainda são centradas nelas e não nascem do grupo. Teriamos bem mais proximidade com a situação conversacional no caso do encontro ativamente buscado pelas partes para saber o que lhes interessa e como ir adiante caso se encontre algo em comum. Nesse caso, observe que não há um professor para dizer o que deve interessar e como as pessoas devem se conduzir a respeito.

Conversação é um encontro entre pessoas desejosas de tratar do que lhes interessa reciprocamente, sem subordinação entre elas. Numa conversa ninguém é melhor ou pior que ninguém. Os aspectos formais como, por exemplo, pausas, reparos, turnos de conversação, acompanhamento de indicadores paraverbais e não verbais, não são novos. O que ainda não está claramente definido na lieratura é a própria natureza do ato conversacional enquanto busca de cooperação e compreensão entre uma ou mais partes. Um bate papo nesse caso não poderia ser considerado um momento de conversação a menos que sirva de "aquecimento" relacional para as partes perceberem-se mutuamente e então empreenderem uma busca de algo que comum.

O que isso tem com conversar e conviver? Tudo. Examinemos quantas vezes na vida nos encontramos por acaso com alguém que se tornou muito especial e "conversa vai conversa vem" - ou seja intercambiando experiências- nos deparamos com possibilidades de empreender juntos que então não estavam claras. Pode ser uma moça ou um rapaz que conheceu casualmente ou um amigo, amiga que topou assim de repente na rua e a partir dai desenvolveu-se um laço relacional, a percepção de interesses comuns e nasceu uma ideia compartilhada com interesse e paixão. É bem possível que essa história esteja por trás de um casamento feliz, de uma banda de rock de sucesso, de um empreendimento inovador, de um time altamente entrosado. Um dos participantes do dream team de basquete, famosa equipe invencível por muitos anos, foi questionado como ele sabia o melhor modo de se colocar em campo. Respondia simplesmente: eu sei o que acontece com os outros quando eu me movo na quadra.  Não preciso olhar nem planejar. Acontece.

Examine seu dia a dia e verifique quantas oportunidades de conversação acontecem consigo e com que você convive. (* Conviver é um conceito correlativo a de conversar, como veremos).

Executivos em uma reunião de planejamento não conversam no sentido de livre interação em busca de um objetivo em comum e um modo de atingi-lo. De forma geral ele já vem em pauta e com frequência determinada por instancias supoeriores. Tal como no colégio e na universidade.

O ensasio é o lugar para a conversa. Seja o ensaio de instrumento de cantores einstrumentistas de blues, de trovadores. De bailarino de dana contemporânea.


Conversar tem raiz latina de com=junto; verso. Você pode usar verso como uma expressão artística para dizer às pessoas que te leem não devem esperar uma descrição ou uma interpretação. Muito menos um manual de instrução. Os versos são outra dimensão. O outro lado. Como frente e verso de uma caixa de equipamentos. É o lado posto.

Conversação não é simplesmente falar para si mesmo. A não ser que você responde e daí se forme um dialogo com uma intenção de chegar a algum lugar. Ter uma boa conversa com si mesmo é bem diferente de se criticar e se defender. Quem com- versa quer chegar a um lugar comum.

O que é  e o que não é conversação:

Perguntar e responder
Explicar

Assistir

Instruir
Dar exemplos

Persuadir
Questionar

Trocar ideias
Desabafar

Colaborar
Interagir

Compartihar
Curtir

Conviver
Chegar juntos a algum lugar

Sem conversar não há solução. E nem há problema.

Conversar é consenso? Não . Uma conversa não se controi pelo voto nem pela opinião da maioria.

Conversar e trocar ideias?

É por pra fora?

Conversar é conviver ?

Vejamos alguns momentos iluminados de conversação:

O monge que "conversa" com D'eus encontra respostas muito específicas para si. Não são universais, embora ele insista em generalizar e torná-las uma regra geral. Perde o sentido.

Duas pessoas que se compreendem profundamente bem não tem uma receita de bolo para passar adiante. É um fato singular acontecendo entre eles. E também nada garante que perdure infinitamente. Momentos de amor, como dizia Vinicius, são eternos enquanto duram. Uma conversa gera compreensão e entendimento entre as partes. Isso é inexorável. Mas não garante que isso dure para sempre. Conversar sempre será preciso mais adiante. Eternamente, enquanto a vida dura.

Examine a sua realidade do dia a dia:

Em quantos momentos de vida você lembra-se de conversar realmente com alguém? Pode descrever como foram estes momentos? Que efeitos tiveram na sua vida?

Como percebe o dia a diad das pessoas à sua volta? Percebe quando elas entram em momento de conversação e que efeitos isso lhes produz?

Qual a diferença entre viver seu dia a dia com momentos frequentes e intensos de conversação e sem ela?

Projete a realidade e verifique como seria seu futuro consigo mesmo e com os outros.
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