O leitor precisa dar-se conta que não somos a única espécie de seres vivos que estabelece redes de comunicação, usa algum tipo de linguagem e convive em grupos. Os mamíferos, especialmente os primatas tem comportamentos claramente sociais e autopercepção assim como percepção de si no grupo. Entretanto a linguagem humana socialmente codificada nos oferece possibilidades inéditas de subjetivação, aprendizagem e convivência social. Mas também tem seus ônus. Enquanto os animais tem bem mais facilidade em valer-se de suas habilidades sensitivo-sensoriais, nós, os civilizados tendemos a utilizar a mediação tecnológica para percebermos a realidade e menos a interatividade presencial. Isso se constitui realmente numa vantagem? Baleias e salmões "sabem" para onde nadam orientando-se pelos polos magnéticos da terra. Nós aparentemente não. Os primatas são mais intuitivos e simples em seus processos de tomada de decisão. Nós muitas vezes complicamos. O que estamos perdendo em deixar de usar de uma forma mais aguda os nossos sentidos de forma sinérgica com nossa capacidade de pensar?
O dialogismo está presente nas relações entre animais de uma forma diferente do que entre humanos. Por isso não nos parece razoável tratar das nossas relações com nossos semelhantes como algo exclusivamente humano e exclusivamente mediado pela linguagem formal. Ele está presente em nosso desenvolvimento muito antes dela. Razão, percepção e Emoção tratadas como forças sinérgicas nos alavancam. Tratadas em separado, nos bloqueiam.
A comunicação é reconhecida como Dialógica quando interagem duas ou mais lógicas em busca de uma lógica maior. É diferente da Dialética: tese-antítese-síntese, pois o dialogismo não pretende uma síntese reduzindo as diferenças e sim utilizar essas diferenças para compor novas possibilidades. Não busca uma síntese e sim uma coerência na comunicação entre as partes. O dialogismo como aqui é tratado não como um evento estritamente linguístico verbal e sim como a comunicação entre pessoas através de todos os recursos que elas dispõem como gestos, posturas, mímica, olhares, tons de voz, modos de vestir-se, de cortar seus cabelos e colocar-se no tempo e no espaço.
Cada pessoa ou grupo tem um modelo de si e dos outros e podem relacionar-se com eles. Quanto mais ricos em possibilidades maior a competência relacional.
A prática dialógica implica em um se colocar no lugar do outro e procurar um lugar (relacional) comum a todas as partes, querendo pertencer, vivendo e convivendo com as suas singularidades, semelhanças e diferenças numa dimensão maior: o "Nós" dialógico. É dialógico no plural, no sentido de uns compreenderem as posições dos outros e interagirem de forma interessante (do interesse de quem interage) e inteligente (reconhecendo as intenções por trás dos comportamentos de cada um).
A comunicação dialógica se distingue pela interatividade entre as partes, seja qual for o número delas, em busca de um coletivo ao qual todos queiram pertencer sentindo-se corresponsáveis.
Não se confunde com a Comunicação Instrumental, nossa competência lógico-racional associada ao lado direito do cérebro e voltada para o ensino de como pensar ou fazer coisas como tarefas executadas mediante instruções e fazer reflexões abstratas.
Pensar e Refletir sem vivenciar a prática relacional é inútil como meio de mudança efetivo.
E não há fórmulas prontas para constituir relacionamentos justamente porque eles têm um componente perceptivo emocional, associados ao hemisfério Direito do Cérebro com outro lógico racional associado ao Esquerdo. A lógica expressiva e impressiva é empírica: convida ao "experimente e verifique o que acontece" e das simulações mentais: "É como se fosse assim em vez de assado". "E se fosse de outro jeito, o que aconteceria? Como seria visto sentido e pensado?"
Nós seres humanos dialogamos com nossas representações da realidade, de si mesmos e dos outros.
A atitude instrumental e a dialógica não são antagônicas. O modo utilitário e instrumental de lidar com objetos, ideias e pessoas não considera o lugar do outro como condição necessária para a comunicação. Toma o outro passivamente como se fosse um objeto de estudo intelectual ou físico, conteúdos, produtos, ideias, serviços. Cada vez mais somos ativos e cooperativos naquilo que queremos e fazemos. Nesse sentido o termo "consumidores” evoca uma massa passiva de seres a mercê de uma minoria que as controla ou pelo menos procura identificar seus comportamentos de massa, como se fossemos galinhas ou gado criados para o abate. A boa notícia é que as pessoas estão se identificando cada vez mais com o termo Cliente. Esse termo sugere uma postura bem mais ativa nas relações comerciais. Pode parecer estranho ao aluno da escola, mas antes de ser aluno ele é um cliente. Com seus direitos e deveres.
Estamos com "a faca e o queijo" para nos organizarmos em redes humanas dialógicas ativamente constituídas, flexíveis e rapidamente transformáveis em função da coerência entre o desejo individual e coletivo. Quando ela efetivamente funciona interagimos proativamente coordenando nossos sonhos individuais e coletivos e adquirimos a sabedoria para adaptarmos nossos projetos e nossas formas de comunicação às demandas do contexto social e do ambiente físico.
Historicamente as tecnologias subordinaram nossos sentidos à elas e precisávamos de especialistas cada vez mais específicos para saber o que era percebido. Agora temos boa notícias: as tecnologias de diferentes campos do conhecimento começam a sofisticar-se tanto a ponto de apresentar seus resultados de formas amigáveis aos nossos sentidos. Cada vez menos precisamos ser especialistas para ver uma imagem tridimensional do cérebro, dirigir veículos (os mais velhos precisavam de motoristas) e "ver" redes de interação humana numa organização, simular realidades com ajuda de softwares e assim por diante. As redes sociais virtuais, com áudio, vídeo e a tridimensionalidade nos aproximam uns dos outros. Podemos nos reunir em grupos em diferentes lugares e conversar.
Temos mais tempo de vida e para inventar e fazer coisas embora se tenha a impressão de que ele nos falta. Circulamos muito mais onde vivemos, viajamos como nunca embora se tenha a impressão de uma constrição do nosso espaço de vida relacional. Nunca tivemos tanta liberdade de ir e vir, de interagir com quem melhor entendermos. E nunca isso foi tão claramente percebido como difícil. Estamos em crise relacional; uma crise de crescimento como seres humanos.
Usamos as tecnologias amigáveis de forma interessante para nos aproximarmos uns dos outros? A presença física e o toque são essenciais ao relacionamento humano, mesmo que a nossa cultura e a nossa ciência não explique o porque. As tecnologias não oferecem ainda essa possibilidade e mesmo que oferecessem, seria um arremedo do que nos já temos como produto de milhões de anos de evolução, com uma sofisticação provavelmente bem maior que uma tecnologia construída. A tecnologia fabricada sempre nos fascinou mais que a instalada: não utilizamos o que temos. Não utilizando o que temos como poderíamos ser o que podemos ser?
Para lidar com ambientes humanos globalizados precisamos como nunca, competências dialógicas muito bem desenvolvidas. Ainda estamos descobrindo o que elas são e como praticá-las. O risco de não tomarmos essa iniciativa é a confusão relacional global.
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