A crise atual é mais bem compreendida como crise da massificação das relações entre oferta e consumo com a consequente perda de identidade de quem oferta e quem consome e da qualidade das relações entre ambos.
As interações cada vez mais qualificadas e personalizadas tendem a substituir - e que seja o quanto antes- as relações massificadas de produção e consumo. Elas tendem a acontecer em pequenos grupos altamente identificados e coerentes com o que fazem entre si e com outros constituindo grupos maiores para os quais as relações de oferta e consumo são recíprocas e nada mecânicas, ou seja, regidas por inovação e criatividade natural das relações humanas fluídas e livres.
Como refere Domenico De Masi, ainda não nos damos conta que saímos da era industrial, da produção e do consumo em massas e do gerenciamento excessivamente centralizado e burocrático de nossas vidas. (http://www.youtube.com/watch?v=XPd8wwmdJJk&feature=related). Entretanto a mudança de mentalidade, como o próprio autor refere em relação às grandes montadoras italianas, não depende apenas do desejo pessoal dos dirigentes e da boa vontade dos executivos e operários.
Trata-se de um modelo de sociedade pouco habilitada no trato das interações humanas e pouco propensa a uma atitude mais relacional entre pessoas, o que De Masi chama de "Ócio Criativo": não se trata de não trabalhar e sim de não trabalhar mecanicamente como na realização de atividades excessivamente burocráticas.
Em resumo: não sabemos nos relacionar como pessoas no dia a dia das nossas vidas.
Historicamente a possibilidade de relações humanas autodeterminadas sendo a essência de uma coletividade inteligente é muito nova. Embora a ideia de democracia e autodeterminação venha desde os tempos da antiga Grécia, a massificação dos meios de produção e consumo deu origem a duas ideologias antagônicas, a do liberalismo e a do socialismo, ambas comprometidas com o a ideia de um "mercado" massificado. O controle das massas sobre ela mesma se mostrou impossível. Por outro lado o controle de um punhado de pessoas e organizações sobre as mesmas massas também não tem dado certo. O espírito "animal" de movimento de massas em rebanho move as bolsas de valores em todo mundo. Entretanto a "volatilidade" indica uma massa humana um tanto perdida em seus movimentos, sem tendência a uma ação coletiva de massas mais coerente no horizonte. A coerência, então não pode ser buscada aonde "todo o mundo" compra e vende ou em como "todo o mundo" pensa e faz.
Não existem mais um mercado massificado. A vida coletiva, com a diversidade dos meios de comunicação, de produção e consumo não tende mais a massificação. Verifique. Olhe em volta. Consulte seus grupos de relacionamento. A tendência é serem cada vez mais singulares e relacionarem-se de forma plural, diversa.
E agora, como vender e comprar numa sociedade tendendo a singularização e pluralização?
No pensamento industrial de massas havia a ideia de nicho de mercado: poderíamos cortar o mercado em fatias como uma pizza. É celebre a expressão do economista Delfim Neto, na década de 60-70: precisamos aumentar a pizza para depois reparti-la entre todos. Ao que parece, mesmo com um crescimento do todo não se observou o crescimento proporcional das partes. Aumentou a riqueza dos ricos e a pobreza não diminui. Afinal, porque os que montam a pizza deveriam reparti-la deliberadamente?
A ideia de uma riqueza coletiva construída com base um uma coletividade homogênea e por isso mesmo controlada por poucos, sejam esses poucos, capitalistas ou socialistas é que está em questão.
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