Sergio Spritzer
Como fazer reuniões e
interagir quando as coisas mudam até durante a própria reunião?
A sua vida parece cada vez
mais acelerada. O tempo não passa, voa. E irremediavelmente passa tão rápido
que não dá tempo de fazer da forma como gostaria ou precisaria. Isso é uma
frustração diária, semanal, mensal. Fazer o quê? O que fazer? Aparentemente não
têm mais tempo para “estacionar” e interagir caso a caso. Esses são os tempos
atuais. O futuro parece incerto. Para muitos, a solução é “viver o presente”.
Aproveitar o que pode enquanto pode. Compre já. Coma já. Faça já. Nem
sempre isso produz bons resultados. Com frequência gera ansiedade e estresse. O
problema dessa estratégia perante a volatilidade e complexidade dos cenários de
futuro, é a perda da qualidade das percepções do que se passa. Então comemos demais, compramos demais e
agimos demais, sem necessidade real, sem real satisfação, com evidente falta de
qualidade experiencial.
Se existe um princípio da
boa forma da comunicação, ela se sustenta na boa forma da percepção das nossas
experiências e da experiência atribuída aos outros. Se você não percebe como se
sente, se vê ou faz, não será capaz de saber como isso está acontecendo e qual
a relação com o que já acontece e com o que pretende.
Por exemplo, se como algo, não
“cai bem” na digestão e depois se sente mal. Se não fizer a ligação entre a
experiência passada presente e futura, tenderá a repetir. O sofrimento aparece como uma realimentação
(feedback) preciosa a respeito da falta de qualidade da sequencia de eventos
que estão sendo vivenciados. Você não percebe por ainda não estar ciente da
pobreza da sua experiência. A sua
neurologia precisa trabalhar com experiências de qualidade para definir e
resolver problemas. A ansiedade é um aviso prévio e a depressão é um aviso
tardio da falta de qualidade na forma como representa a sua experiência.
A pobreza na forma como as
pessoas representam a sua experiência é causa ou efeito? De uma realidade
física (anatômica, bioquímica), mental (subjetiva) ou cultural, social? Nesse
momento pouco importa. Interessa é que seja qual for a causa, e não acho que
existam em separado, a experiência está empobrecida. Se você puder enriquecê-la
os resultados mudarão e provavelmente sua neurologia será outra.
Existem opções que podem se
constituir como outra via de definir e resolver situações em clima de alta volatilidade.
A pergunta é então: como
você pode lidar com experiências múltiplas, interligadas e ainda por cima se
transformando a todo o momento?
Nossa neurologia está em
plena transformação como seres humanos. Nunca fomos tão demandados como
espécie, para imaginar em detalhes o que acontece e o que pode acontecer como
nos tempos atuais. Não há fórmulas prontas para construir cenários de futuro
por uma razão muito simples: eles são construídos, mais que em nenhuma outra
época da civilização, enquanto interagimos uns com os outros e com a própria
experiência. Ela se projeta como tendência e muda como tal, seguindo os ventos
e as correntes do próprio fluxo interativo.
Então é a própria atividade
interativa é que vai determinando como ela será. Se você parar de interagir
seja com você mesmo no plano interno e com os outros no plano externo, o
trabalho de projetar tendências e cenários também fica em suspenso. Não
acontece.
A consequência prática é:
Interaja e verifique atenciosamente o que acontece. Entre em um fluxo relacional
construindo interativamente o futuro de acordo com a demanda e os resultados
obtidos. Ela muda o tempo todo. Você não vai ter uma previsão linear de médio e
longo prazo, mas vai poder construir previsões não lineares, com a percepção de
movimentos oscilantes de altas e baixas, recuos e avanços, lenhificações e
acelerações.
O desafio para isso é
expandir de forma não linear suas funções neurológicas como a atenção, a sua
comunicação verbal, corporal, percepções, a capacidade de representar
realidades não lineares, a capacidade de refletir a respeito delas e, enfim, a capacidade
de perceber com a consciência expandida, não linear com é a sua vida e a sua vida com outros.
Dentro da nossa compreensão
tradicional da consciência dividimos entre uma parte consciente e outra não. Entretanto
o processamento neurológico das nossas experiências é cada vez mais acessível
se prestarmos mais atenção no modo como ele se passa. E se trata de uma atenção difusa, não local.
Ora ela é local, ora é global. O que era consciente como pura racionalidade já
não cabe mais. A consciência das nossas experiências têm se mostrado tão
importante quanto a capacidade de pensar racionalmente. Experimente.
A formação de uma rede
interativa de pessoas é espontânea. Acontece a partir de instituições preexistentes
como um coral se forma em torno de um barco afundando. O barco, pedra ou
entulho afundado ou formação rochosa preexistente na natureza é inerte, mas não
o coral e o ecossistema em construção usando esse ambiente físico. A diferença é
óbvia: ambas têm uma base física, mas só o coral é um ecossistema vivo e
interativo.
Numa família assim como nas
reuniões e congressos, são os momentos convencionais, impostos pela cultura.
Embora aparentemente inertes, podem oferecer possibilidades de articulação de
novos laços e possiblidades capazes de inovar a própria ordem tradicional. A
hora do cafezinho, o encontro espontâneo nos corredores, nos intervalos de um
evento formal, as conversas que se seguem nas plataformas de rede na internet,
podem dar novas tendências ao ocorrido formalmente, desde que essa interação
seja livre e tenha campo de expansão sem controle dos organizadores. Nas
escolas, é fora do ambiente formal das aulas que os alunos interagem entre si e
com os professores e realmente aprendem. Corre uma brincadeira que no fundo é
verdade, a respeito da falta de sentido das reuniões convencionais: se elas
fossem feitas na cantina ou num bar ao invés de salas e salões convencionais,
seriam mais produtivas, simples, fáceis, inovadoras. Tire a hora do café antes
e depois da reunião ou palestra e verifique o que acontece. Na nossa
experiência, perde-se a oportunidade para os intercâmbios realmente
transformadores. É nessas ocasiões que a informação circulante pode ser
efetivamente assimilada, transformada em aprendizagem e ensaiadas novas
possiblidades.
Os eventos de alta
interatividade acontecem em pequenos grupos, por livre iniciativa,
voluntariamente e de forma autodeterminada. Com o tempo, diferentes grupos
tendem a confluir para grupos maiores de forma igualmente espontânea até
acontecer um movimento inclusivo de grandes proporções, ou seja, aparece uma
nova corrente com novas propostas dialogando de múltiplas formas com o ambiente
tradicional.
Algumas habilidades
necessárias para a interação voltada para redes:
Saber ouvir atentamente ao
ponto de fazer uma representação tridimensional do que as pessoas expressam:
·
Como uma experiência de algo visto, ouvido e
sentido.
·
Com passado, presente e futuro.
·
Como uma experiência associada desde o seu
ponto de vista articulada com
·
A experiência do Outro (desde o seu ponto de
vista e desde o ponto de vista dele)
·
Dissociada desde o ponto de vista do outro e
da sua, em metaposicão, ou seja, em uma dimensão incluindo a ambos em relação
aos outros, além de vocês: Nós em interação com Eles.
Note como estes modelos de
realidade, estruturas de experiências ou representações de mundo, interagem
umas com as outras e até mesmo se interdependem.
Note como a representação de
si e do outro são efeitos de interação entre você e o outro. Não são
independentes.
Note como a representação de
vocês tal como é dada culturalmente e socialmente vai dando lugar a uma
representação cada vez mais especifica e especificada, cada vez mais precisa em
relação ao que realmente lhes interessa a cada momento e no momento seguinte.
Esse tipo de representação não poderia ser prevista desde uma referencia social
ou cultural preestabelecida.
De onde concluímos:
O planejamento é um efeito
da interação entre as partes e não uma pré-condição para a interação acontecer.
As referências sociais e
culturais das pessoas, grupos e organizações é o campo aonde o jogo relacional
acontece. Não são os jogadores e muito menos o jogo real.
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