Um cliente chega à consulta com a seguinte demanda: "Não sei o que eu quero. Sinto-me perdido. Confuso. Já procurei várias coisas para fazer e não deu certo. Estou sempre mudando. Mas não sei onde quero chegar."
Imagine em escala essa demanda: pode ser de uma pessoa. Pode ser de uma porção de si que não sabe o que quer, enquanto outras partes sabem (nesse caso temos um "conflito de partes" como dizia uma famosa
terapeuta, Virginia Satir). Pode ser também que essa pessoa não saiba o que quer em relação ao seu relacionamento, família, equipes ou empresa em que transita. Nestas relações, uma das partes pode não saber o que quer e a outra ter isto bem claro. E aí se instala o conflito.
Afinal como saber o que se quer?
Em principio não se trata de uma resposta filosófica. Nossa neurologia pessoal nos dá o caminho: Se você age de uma forma que se sente bem psicológica, física e socialmente, é uma indicação óbvia de que quer o que você está vivendo, seja lá o que for.
Ou seja, o organismo se encarrega de informar se algo que comeu ou bebeu é bom ou ruim, fez bem ou mal. Se recordar momentos de vida no qual (ou nos quais) você se sentiu realmente bem, é muito provável desejar que que eles se repitam. O que dá prazer, satisfação e desperta sentimentos de realização é memorizado como "sentir-se bem". Quando uma experiência não aponta para esse tipo de resposta interna, nosso íntimo (nossa neurologia pessoal) interpreta como "sentir-se mal".
Nossa neurologia tem uma lógica muito simples: sentir-se bem é bom. Podemos medir efeitos fisiológicos, psicológicos (e sociais) altamente positivos associados a pensamentos e sentimentos positivos. E isso não acontece por acaso.
Certa ocasião eu atendi uma pessoa que dizia não saber o que queria. Eu me encarreguei de contestá-lo: "Sabe sim. Você quer é sentir-se bem". O sujeito ficou me olhando pensativo e achando que era uma ironia.
- Você lembra de momentos na sua vida quando teve certeza de estar sentindo-se muito bem?
- Claro que sim - , diz ele. E mergulhou facilmente em um punhado deles. Com muita facilidade.
- É realmente bom sentir-se assim?
- Sim. É ótimo.
- Como sabes?
- Eu sinto.
- Como sentes?
Ele baixa a cabeça e cruza os braços num gesto de abraçar-se: - Hum não sei dizer.
- De fato. Não eu perguntei para responderes verbalmente. Você indica pelo teu gesto como é para ti esta experiência.
A pergunta seguinte (que você pode entrar nesta experiência e responder aí, na sua privacidade) é:
- Como seria estar nesse tempo e nesse momento quando estás sentindo-se assim muito bem?
Meu paciente, neste momento, mergulha ainda mais na experiência, mostrando soltura e leveza na fisionomia, postura, olhar, respiração:
- Me sinto bem.
- Se for possível sentir-se assim daqui há um minuto, gostaria de permanecer assim por dentro?
- Claro que sim.
- Então continue sentindo-se bem por mais tempo. Digamos por uma hora, depois que sair daqui, quando for a algum lugar, que sabe que vai ir e sabe como quer sentir-se.
O sujeito continua abraçado em si, viajando pelo futuro próximo.
- Isso. Vá adiante e faça alguma coisa de tal forma que se sinta melhor ainda. Por exemplo, ontem você fez algo da sua rotina e sentiu-se de uma forma. Agora, no futuro próximo projete-se nessa situação sentindo a diferença que faz a diferença.
O sujeito levanta levemente a cabeça como se estivesse olhando andando ou vendo a si mesmo adiante.
- ... Sim. Sei como é.
- Sabendo como é, saia um pouquinho de si sentindo-se bem e repare na sua presença logo a frente, nesse mesmo estado. Observe sua aparência, sua postura, a expressão do rosto enquanto age da forma como quer, fazendo o que faz.
O sujeito começou a representar a sua imagem agindo com vontade de fazer algo. Dali para frente, foi uma questão de escala para ele projetar a imagem de si em um futuro no qual se sentisse realmente bem vivenciando. Agora, sabia representar em sua mente a imagem de si mesmo agindo de tal forma que dava gosto de ver.
Em resumo, o sujeito aprendeu a acessar suas sensações e sentimentos internos e, através deles, recuperou em nível consciente imagens e pensamentos de si orientados para ver-se agindo com gosto. Agora sabia quem era "esse cara aí", gostando do que faz e fazendo o que gosta em seu futuro.

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