"Não sei o que eu quero"

By | 13.11.13 Deixe um comentário

Um cliente chega à consulta com a seguinte demanda: "Não sei o que eu quero. Sinto-me perdido. Confuso. Já procurei várias coisas para fazer e não deu certo. Estou sempre mudando. Mas não sei onde quero chegar."

Imagine em escala essa demanda: pode ser de uma pessoa. Pode ser de uma porção de si que não sabe o que quer, enquanto outras partes sabem (nesse caso temos um "conflito de partes" como dizia uma famosa
terapeuta, Virginia Satir). Pode ser também que essa pessoa não saiba o que quer em relação ao seu relacionamento, família, equipes ou empresa em que transita. Nestas relações, uma das partes pode não saber o que quer e a outra ter isto bem claro. E aí se instala o conflito.

Afinal como saber o que se quer?

Em principio não se trata de uma resposta filosófica. Nossa neurologia pessoal nos dá o caminho: Se você age de uma forma que se sente bem psicológica, física e socialmente, é uma indicação óbvia de que quer o que você está vivendo, seja lá o que for.

Ou seja, o organismo se encarrega de informar se algo que comeu ou bebeu é bom ou ruim, fez bem ou mal. Se recordar momentos de vida no qual (ou nos quais) você se sentiu realmente bem, é muito provável desejar que que eles se repitam. O que dá prazer, satisfação e desperta sentimentos de realização é memorizado como "sentir-se bem". Quando uma experiência não aponta para esse tipo de resposta interna, nosso íntimo (nossa neurologia pessoal) interpreta como "sentir-se mal".

Nossa neurologia tem uma lógica muito simples: sentir-se bem é bom. Podemos medir efeitos fisiológicos, psicológicos (e sociais) altamente positivos associados a pensamentos e sentimentos positivos. E isso não acontece por acaso.

Certa ocasião eu atendi uma pessoa que dizia não saber o que queria. Eu me encarreguei de contestá-lo: "Sabe sim. Você quer é sentir-se bem". O sujeito ficou me olhando pensativo e achando que era uma ironia.

- Você lembra de momentos na sua vida quando teve certeza de estar sentindo-se muito bem?


- Claro que sim - , diz ele. E mergulhou facilmente em um punhado deles. Com muita facilidade.


- É realmente bom sentir-se assim?

- Sim. É ótimo.


- Como sabes?



- Eu sinto. 



- Como sentes? 



Ele baixa a cabeça e cruza os braços num gesto de abraçar-se: - Hum não sei dizer.


- De fato. Não eu perguntei para responderes verbalmente. Você indica pelo teu gesto como é para ti esta experiência. 


A pergunta seguinte (que você pode entrar nesta experiência e responder aí, na sua privacidade) é:


- Como seria estar nesse tempo e nesse momento quando estás sentindo-se assim muito bem?


Meu paciente, neste momento, mergulha ainda mais na experiência, mostrando soltura e leveza na fisionomia, postura, olhar, respiração:


- Me sinto bem.


- Se for possível sentir-se assim daqui há um minuto, gostaria de permanecer assim por dentro?



- Claro que sim.



- Então continue sentindo-se bem por mais tempo. Digamos por uma hora, depois que sair daqui, quando for a algum lugar, que sabe que vai ir e sabe como quer sentir-se.



O sujeito continua abraçado em si, viajando pelo futuro próximo.


- Isso. Vá adiante e faça alguma coisa de tal forma que se sinta melhor ainda. Por exemplo, ontem você fez algo da sua rotina e sentiu-se de uma forma. Agora, no futuro próximo projete-se nessa situação sentindo a diferença que faz a diferença.


O sujeito levanta levemente a cabeça como se estivesse olhando andando ou vendo a si mesmo adiante.



- ... Sim. Sei como é.



- Sabendo como é, saia um pouquinho de si sentindo-se bem e repare na sua presença logo a frente, nesse mesmo estado. Observe sua aparência, sua postura, a expressão do rosto enquanto age da forma como quer, fazendo o que faz.


O sujeito começou a representar a sua imagem agindo com vontade de fazer algo. Dali para frente, foi uma questão de escala para ele projetar a imagem de si em um futuro no qual se sentisse realmente bem vivenciando. Agora, sabia representar em sua mente a imagem de si mesmo agindo de tal forma que dava gosto de ver.

Em resumo, o sujeito aprendeu a acessar suas sensações e sentimentos internos e, através deles, recuperou em nível consciente imagens e pensamentos de si orientados para ver-se agindo com gosto. Agora sabia quem era "esse cara aí", gostando do que faz e fazendo o que gosta em seu futuro.
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